Desmundo

Ao som de: Naked As We Came_Iron & Wine _Our Endless Numbered Days

Bárbara, que as vezes acredita ser uma representação antropomórfica da morte...mas não aquela de foice e capuz, e sim a do Neil Gaiman, bem mais divertida, diga-se de passagem...

Bárbara, que as vezes acredita ser uma representação antropomórfica da morte...mas não aquela de foice e capuz, e sim a do Neil Gaiman, bem mais divertida, diga-se de passagem...

Esse texto foi gentilmente cedido (tudo bem que eu insisti um pouco) pela nossa nova colaboradora, Bárbara Figueira. Ela que já foi flor, foi capa de chuva e galochas, lampada fluoresente, atriz profissional e platéia as vezes,  agora tentando desenvolver vários clones de si mesma para conseguir fazer tudo que lhe dá prazer, aparece agora por aqui, mostrando toda sua sensibilidade. Eu me identifiquei, quem sabe você não se encontre nesse texto tbm.

Desmundo

Um palco. 14 corpos.

Eu sou o olhar aflito da Micheli . Ela, ela ou um alguém qualquer. Ela é um alguém qualquer. E nesse mundo de nós ( somente nós) um alguém  já não vale quase nada.

Agora ela é ela e nada é nada. Todos sentam e há no corpo uma ferida aberta que pulsa latente, num estorpor de dor.

– Oi.

– Oi.

Eu sou a mão ansiosa da Micheli. A pequena mão sem lugar num corpo tão aberto. O corpo aberto recebe, mas não oferece nada. O corpo aberto não consegue filtrar o turbilhão de energia que o atravessa.

Ela é uma peneira de estrelas inúteis.

A menina janela se debruça sobre a tela cheia de luz e chora como se fosse criança. E pela primeira vez, desde a sua infância, ela chora e soluça até dormir.

Eu sou o estômago ferido da Micheli. Eu sinto sua indigestão. Eu sou sua indigestão, o seu enjôo, o seu suco gástrico corroendo as paredes misturado aos doces de anteontem.

A menina bílis pára, olha para o céu e se identifica com o pano negro sem uma estrela qualquer… ela é como o céu naquele momento: tão grande que não tem pra onde ir.

Então, com seu vestido de tuli negro e vermelho ela começa a pensar em tudo aquilo que não foi por medo, que não foi por precaução e pensa que tudo aquilo foi tão necessário e tão ruim e tão bom, que ela só pode agora ser menina-decadente-reluzente graças aos seus medos. E como ela tinha, meu deus…

E dançando sobre o piso de madeira e poeira, com aqueles 13 corpos que eram ela também, Micheli só deseja ter a quem amar. Amar , sabe? Amor pessoa, pessoa carne, pessoa bom dia, pessoa parque, pessoa veia e sangue. Ela só deseja alguém que lhe faça amor e café. Mas no fundo daquele abismo arco-íris ela sabe que um qualquer alguém que não fosse ela mesma não adiantaria… uma tentativa tão inocente quanto inútil e resolveria as coisas de modo tão paliativo…

Dança. Dança, dona moça que dançando tuas lágrimas se transformam em rio, em água doce pra te banhar.

Eu sou o coração partido da Micheli.

.Bárbara Figueira.

One response to this post.

  1. Posted by Gustavo Sabino on 6 de maio de 2009 at 10:34 AM

    ééééééééé…se tem duas coisas importantes nessa vida, com certeza são sexo e café (não necessariamente nessa ordem)!

    Responder

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