Archive for 4 de junho de 2009

Meu dia do Orgulho Nerd_parte 05_Alta Fidelidade

Por: Lucas Bonachovski, o leitor compulsivo errante

Ao som de: Keep on Knocking_Death_…For The Whole World To See

 alta fidelidade

Tá, eu sei que esse dia do orgulho nerd está sendo mais longo que toda a saga do anel (dá um google ai, se você não sabe o que é isso). Mas acreditem, é mesmo por uma boa causa. Simplesmente não queria falar sobre meu melhor presente de aniversário dado por mim mesmo, sem antes ter conhecimento do que estou falando. E acreditem, ler o ‘Alta Fidelidade’ até o fim, durante horas a fio no dia meu aniversário de fato (31 de maio, para os desavisados… ainda aguardo os parabéns) foi uma experiência transcendental.

Primeiro, por que queria a muito tempo achar esse livro (sério, encontrá-lo foi quase como escavar um sebo de quadrinhos e só ver Tex por horas a fio, e no fim de uma pilha de revistas, encontrar um Batman: o Cavaleiro das Trevas ou a primeira edição de Watchmen). Segundo, por que o livro conta em detalhes à história da minha vida amorosa inteira, só que passada na década de 90.

Rob Flemig, personagem principal do livro, que também poderia se chamar Lucas Bonachovski, é dono de uma loja quase falida de discos, em Londres. Tem como hobby, ou talvez religião, ouvir, conhecer e criticar tudo que se relaciona à música seja ela de qualidade ou não. Além disso, Fleming tem uma mania curiosa: define sua vida praticamente toda a partir de lista de cinco mais: as cinco melhores canções, os cinco melhores filmes e livros, e coisas mais estranhas.

No entanto, sua lista mais importante é a das cinco namoradas que mais o fizeram sofrer. Isso tudo devido a um recém termino de namoro, com Laura, alguém que Rob achava que amava acima de outras pessoas, mas que no fim, mostrou-se mais uma como as outras…ou não?

É a partir do término do seu namoro que Rob passa a repensar todos os seus 35 anos de vida, revendo princípios, escolhas e posturas, tentando entender o que deu errado nesse tempo todo. Rob está quase falido, sem vida social, sem amigos (a não ser Barry e Dick, dois de seus funcionários, tão ou mais viciados em músicas e excêntricos quanto ele). Sua família não tem fé na idéia de que Rob encontrará uma carreira de sucesso, na perspectiva tradicional que trata sucesso igual a dinheiro e não a satisfação pessoal, necessariamente. E sua namorada acaba de terminar com ele, pra ficar com o vizinho do apartamento de cima, um verdadeiro babaca.

Mas no decorrer da história, a medida em que conhecemos mais Rob, vemos que ele é um sujeito tão normal quanto você, ou o jornaleiro da esquina, o caixa do banco…e principalmente, a mim. Que erra, é orgulhoso, não dá o braço a torcer, mas que sofre, chora e se arrepende das coisas que fez.

E é nesse momento que o livro se torna verdadeiramente assustador, no bom sentido claro. Quando vi que a normalidade de Rob, sua humanidade e personalidade, se parecem totalmente com as pessoas a minha volta. Igual ao meu amigo, também cresci cercado de cultura pop por todos os lados: música, cinema, literatura, quadrinhos aos borbotões. Enfim, minha vida é um apanhado de referencias pop e não consigo em momento nenhum me desgarrar disso, como se isso fosse minha ancora com esse mundo. E tal como Rob, por algum motivo, acredito que minha geração é formada por homens que chegaram aos 14 anos e pararam de amadurecer por ali mesmo, enquanto as mulheres continuaram crescendo e se tornando cada vez mais interessantes e charmosas. Somos uma geração que não consegue tomar decisões e que não consegue assumir responsabilidades com tanta facilidade. Enfim, creio que somos uma geração extremista de “carpe diem”, clamando pelo próximo grande blockbuster ou o novo filme de Wood Allen, o novo single do Franz Ferdinand. Que espera ansioso o desfecho de Lost ou de Dexter e que não vê a hora de ler o Scott Pilgrim traduzido em português. Mas que ao mesmo tempo, não consegue decidir sobre qual carreira escolher pro futuro, ou se devemos ou não estar mesmo com aquela pessoa que nos compreende e que nos acolhe, mesmo conhecendo nossos defeitos, só por que nos recusamos a acreditar que a cultura monogâmica seja mesmo a melhor referencia para nossas vidas.

E no fim de tudo, só queremos alguém que goste dos mesmos discos e filmes que nós, como se isso fosse o mais importante de tudo. Aprendi que samba e stoner rock podem conviver tranqüilamente um com o outro, mas percebi isso tarde demais. Então, tal como Rob, acredito que é hora de tocarmos o barco.

Enfim, após divagar tanto sobre a vida, a morte e filosofia, vamos ao que interessa: o livro é muito bom, um ótimo retrato pop de um homem moderno. Vale cada minuto de leitura pelo humor, sensibilidade e referências musicais de um dos melhores autores da década de 90 e dos anos 00.

PS: “Alta Fidelidade foi adaptado ao cinema  em 2000, com John Cusack no papel de Rob, e um fenomenal Jack Black no papel de Barry. O filme modifica o roteiro original, perdendo parte de seu charme, mas ainda assim continua a ser uma ótima adaptação de um livro ao cinema. Vale muito a pena assistir. Fiquem com um gostinho ai, assistindo ao trailer:

Segue também minha humilde lista das cinco melhores adaptações de livros para o cinema:

 

1)      O Poderoso Chefão, de Mario Puzzo_o livro definitivo sobre a Máfia, e como se relacionar com sua família

2)      O Clube da Luta, de Chuck Palahniuk_um dos livros essenciais pra se pensar a sociedade em que vivemos e para aprender a surtar com estilo

3)      O Senhor dos Anéis, de J.R.R Tolkien_simplesmente o livro que ensinou ao mundo o que era aventura fantástica, bíblia de qualquer rpgista

4)      Trainspotting, de Irvine Welsh, o livro essencial sobre drogas, e suas conseqüências…boas e ruins.

5)      Neuromancer, de Willian Gibson (ta, não foi adaptado de fato, mas serviu como uma das bases para o roteiro de Matrix , considerado um dos grandes filmes de ficção científica da nossa geração)_ o livro que me mostrou que o futuro será cinza, perigoso…e sexy…ah Molly, ainda tenho sonhos com vc!