O meu coração, um velho porão.

Por: Bárbara Figueira

Ao som de: Peito Vazio_Cartola II (1976)_Cartola

 O meu coração é uma peça de carne barata exposta num açougue de esquina.

Toda essa questão gira em torno de um verbo, quem sabe até seja ele a minha palavra de ordem, desde os oito meses quando minha boca desdentada começou a esborçar seus primeiros fonemas: falar.

Se um dia você me conhecesse notaria que eu não sou o tipo de garota calada. Não. Ele até me disse uma vez a bendita frase: ” Você é tempestade pra minha vida” com o sorriso de quem guarda algum tesouro. Mesma frase essa que três anos depois me foi repetida em tom de cansaço monocordio: e a tempestade então, aquela mesma tempestade que de início era a promessa de romance montanha-russa, passou a ser o motivo do fim do nosso amor. Sim, eu sou tempestade demais pra vida desse moço que não sabe o que fazer das próprias mãos.

Vamos voltar então ao ponto central. Talvez eu não dê conta porque meu pensamento é rizomático. Tentarei dessa vez um esboço didático, uma tentativa apolínea de mostrar como anda minha cabeça-alma dionisíaca ( Dionisíaca sim, e isso sempre minha fortuna e desespero): Eu não posso, eu não consigo , mesmo frente ao muro de desapego, mesmo frente àquela cara neutra morta inexpressiva imemorável me calar:

          ” Eu só quero que você saiba que um pedaço grande de você ainda mora em mim e eu se pudesse arrancava esse negócio assim com a minha mão…”

Assim, tosco. Direto.

” Deixa eu te falar… deixa eu falar! Não, não é porque eu bebi… não… deixa eu te contar que o dia em que você me disse   ‘ olha, acabou o amor’ veio uma luz clara e o mundo inteiro se abriu…”

 Ele não entende. Ele não consegue compreeender que tudo isso tem a ver comigo, pequena menina voluta, e ele tem que ser meu ouvinte fiel, meu objeto recorrente de um sentimento que mora no meu corpo. Só no meu.

Eu falo. Eu não consigo me calar nunca e isso não é uma hiperbole, uma metáfora ou coisa que o valha. Eu falo e reino absoluta no mundo da sinceridade, porque tudo o que eu tenho a oferecer é esse meu amor cantado, etereo, fraseado e verdadeiro. Eu falo porque minha coragem suicida me impulsiona a arrancar e deixar cair meus pedaços de máscaras pelo chão. Eu falo porque é n e c e s s á r i o. Absolutamente necessário. Eu falo pra não padecer.

 Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmm! Façamos com que nossa perda, nossa dor seja nosso amado tabu exposto!

 Siiiiiiimmmmm! Peguemos nosso coração carne de 2º  e expunhamo-lo em carne viva quando assim nos apetecer.

Sim, porque nossa coragem é nosso maior trunfo e minha verdade me alimenta a não calar jamais.

Eu, intrépida aventureira. Eu, um quixote de patins, vou decidida e com a ajuda de um pequeno bisturi abro espaço entre meus seios: o centro da minha caixa toráxica. Com a ajuda de meus dedos abro caminho por entre a estrutura óssea, as veias e o sangue e o capturo. Então, lá está ele em minha mão: grande, pequeno, capenga. Pulsando. Estico minha mão cheia de veias e sangue, com aquele vermelho coração-trator. Ele olha e calado vai embora, sem uma palavra sequer.

Daí eu entendo… que coração que nada. Pra algumas pessoas é preciso ter estômago.

[nota bonachovskiana] um clipe propício?talvez…

Gnarls Barkley_Who’s Gone Save my Soul

2 responses to this post.

  1. Posted by Elisa on 14 de junho de 2009 at 7:18 AM

    É Barbara… C’est la vie.

    Responder

  2. Posted by Gustavo Sabino on 22 de junho de 2009 at 2:56 AM

    Atualiza essa porra Luket!!!

    Responder

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