10 Melhores discos pra ficar feliz com a tristeza alheia – por Leonardo Brasas

Por Leonardo Braseiro

Ao som de: Aceito seu coração_Roberto Carlos_1969

Essa lista só não é mais triste que o Sad Keanu...abudeusi, dá vontade de dar um abraço nele...

Particularmente falando, sinto um paradoxo muito excêntrico quando fico sabendo de notícias sobre tragédias naturais apocalípticas, ataques suicidas de terrorismo, assassinos seriais absurdamente psicóticos e toda desgraça em geral: Ao mesmo tempo em que sinto uma extrema alteridade e empatia pelos mortos e sobreviventes sinto também uma enorme alegria por esta merda toda não ter acontecido comigo.É aquele clássico sentimento do: “Ainda bem que não foi comigo”;sentimento este que acaba sendo bom, pois o faz repensar o caminho, aproveitar as pequenas coisas e principalmente valorizar a vida.Olhando por este prisma notei que musicalmente falando adoro discos, músicas e artistas tristes, deprimidos e suicidas.Pelo simples fato de que a desgraça alheia me faz feliz por não ser eu o desgraçado em questão, mas diretamente falando é porque: música  triste me deixa feliz!

Baseando-se neste preceito egoísta-humanitário (eu realmente deveria me alistar na Cruz Vermelha ou na Juventude Hitlerista…dúvida cruel) elaborei esta lista dos 10 melhores discos pra ficar feliz com a desgraça/tristeza alheia.E parafraseando Woody Allen:

“A vida é uma merda, mas passa rápido demais.”

10- The Bends(1995) – Radiohead

Thom  Yorke já disse que compôs as músicas do disco bêbado e sozinho no fundo do ônibus onde a banda viajava para promover o primeiro disco, pois ele acreditava piamente que deveria ser algum tipo de artista torturado.Depois de se catapultar ao sucesso com a música mestre da tristeza alheia “Creep” o Radiohead lançou no dia 13 de Março de 1995 este clássico absoluto do rock deprimido.Se o disco só contivesse “High and Dry”, “Fake Plastic Trees”(aquela mesmo do Carlinhos) “(Nice Dream)” e “Street Spirit” o disco já seria um clássico por si só.Mas até mesmo nos momentos mais roqueiros e pesados a banda soa triste,urgente e desesperada como á muito não se ouvia.Vide as roqueirinhas “Black Star” e “Just (do it yourself)” que em seus versos despedaçados auto-explicam o disco inteirinho:

“Não pegue minha simpatia

Se dependurando do 15º andar

Você já trocou a fechadura 3 vezes

E eu ainda chego cambaleando até a porta

Um dia eu vou te pegar

E te ensinar como chegar ao inferno absoluto”

Indicado para quem: Quer pagar de deprimido e alternativo ao mesmo tempo.

09- Chega de Saudade(1959) – João Gilberto

Já chamaram este disco de “o melhor disco brasileiro de todos os tempos”, de revolucionário, de reformulador do samba e de bíblia da bossa nova.Para mim é um disco triste.Mas de uma tristeza de dar dó.João Gilberto quando canta com sua micro voz cool faz quase o tempo estacionar e as palavras flutuarem por entre seus tímpanos como se fossem veludo azul.É um cotonete musical se é que você me entende, e soa muito estranho tamanha tranqüilidade que canções tão(pasmem!?) tristes como”Chega de Saudade”,”Brigas, Nunca Mais” e “Rosa morena”  possam provocar bons fluídos em qualquer ser humano comum e ordinário.Até a capa do disco remete a um clima melancólico: João novinho vestido com um suéter cinza sob uma camisa posa com a mão sob a bochecha fazendo cara de entediado rico e infeliz.Típico!Mas é cool até hoje!

Indicado para Quem: Gosta de curtir uma depressão na companhia de um bom scotch.Porque o whisky baby, “é o cão engarrafado”.

08- Funeral(2004) – Arcade Fire

O que dizer de um álbum em que o tema predominante e recorrente é a morte?A avó de Regine Chassagne havia falecido em Junho de 2003, o avô de Win Butler em Março de 2004, e uma tia de Richard Reed Parry em Abril.A sombra da morte pairou sobre toda a gravação e nada mais natural do que nomear o álbum de Funeral; como se fosse uma espécie de homenagem póstuma aos entes queridos que cruzaram o cabo da boa esperança.Mas o que realmente impressiona no álbum é que o tema não foi tratado de forma mórbida e meramente pessimista, mas sim com muita maturidade e esperança.Embalando o pacote, as belas canções arranjadas com instrumentos nada usuais ao pop formam um epitáfio perfeito para demonstrar ao mundo o que o Arcade Fire era capaz de fazer.Mas não vá imaginando muita coisa, a maior parte das músicas são tristes de doer, fora que “Crown of Love”, “Wake Up” e “Rebellion(Lies)” podem facilmente arrancar uma lágrima de seus olhos.Mas não lágrima de tristeza e sim de fascinação.

Indicado para quem:Quer escolher uma ótima música pra tocar no dia do próprio enterro.

07- King of the Delta Blues Singers(1998) [Compilação] – Robert Johnson

Primeiro farei justiça:Eric Clapton, Jeff Beck, Keith Richards, Mick Jagger, Jimmy Page, Stevie Ray Vaugüan e Nick Cave devem todas as suas cuecas a Robert Johnson.Ponto.Pra continuar convenhamos que o Blues por si só já vem com a tristeza embutida como sua força motriz.Se os negros não sofressem pracaralho nas imensas colheitas de algodão dos deltas do Mississipi talvez o gênero nem existisse como tal.Foi lamentando a padecida vida que levavam, que os primeiros bluesman do mundo criaram canções que saíram de ostras pra se converterem em pérolas do sofrimento alheio.E Robert Johnson com seu violão fantasma e sua voz brutalmente calejada é mola mestre deste gênero que despontou em beiradas de rio e encruzilhadas mal encaradas.Canções como “Crossroads Blues”, “Me and the Devil Blues”, “Rambling on my Mind” e “Terraplane Blues” são não só a cartilha para os melhores roqueiros da História, mas  também a gênese de uma nova maneira de contemplar a beleza da tristeza.O tipo de coisa que raramente se repete.

Indicado para quem:Gosta de beber solitariamente em buteco enfumaçado ás 04:00 horas  da manhã.

06- Berlim(1973) – Lou Reed

“Eins, zwei, drei…”.

Berlim é o terceiro disco de Lou Reed e o primeiro a ser pensado, composto e lançado de forma conceitual, coisa que era muito comum no início dos anos 70.Tudo o que você imagina que pode provocar tristeza está aqui: marginalidade, drogas, desespero, solidão, vício, violência, infortúnio, corações partidos e toda sorte em desgraça.O disco conta música por música o conturbadíssimo relacionamento entre Jim e Carol entremeado pela narrativa seca, dura e muitas vezes poética de Lou, que como um noticiário noturno despeja desgraças na cara do ouvinte sem dó.Temos aqui vários clássicos não só de Lou mas verdadeiras bandeiras da tristeza alheia como a belíssima “Lady Day”, “Men of Good Fortune”, “Caroline Says 1” por aí a fora.A grande sacada é que o disco desce bem melhor se encarado como se fosse um filme, apreciado por inteiro da primeira a última música.Pode ser uma experiência sorumbática se você entrar na onda, mas não deixa de ser inesquecível, assim como os melhores traumas.

Indicado para quem: Acha que tem um relacionamento complicado.

05- Loki(1974) – Arnaldo Baptista

Após o fim de seu matrimônio com Rita Lee (posteriormente também ele sairia do’s Mutantes) Arnaldo estava em frangalhos.Ligeiramente abalado pela condição imposta de ser abandonado pelo amor de sua vida ele estava um bagaço sentimental.Foi exatamente nesta situação que ele compôs e gravou “Loki”.Um disco fabuloso mas absurdamente triste.Executado por Arnaldo ao piano, praticamente todas as músicas carregam um certo tom existencial.Mesmo com várias sacadas humorísticas e eventuais arranjos roqueiros o que predomina no álbum é o sentimento claro de alguém que está tentando seguir em frente.”Será que eu vou virar bolor”,”Ce ta pensando que eu sou Loki” ilustram bem esta vertente.Arnaldo estava não só debilitado pelo coração partido, mas também pelo consumo abusivo de LSD que mantinha na época o que pode explicar a natureza lisérgica de algumas letras.Mas um certo tom de resignação e niilismo percorrem todo o álbum e de forma nenhuma o torna  menos relevante.É uma obra melancólica,alucinada mas inteiramente sincera.E isso é tudo.

Indicado para quem:Teve uma bad trip de ácido recentemente.

04- The Marble Index(1969) – Nico

É possível um disco vender o suicídio?”The Marble Index” é o segundo álbum solo de Nico após uma estréia lindamente melancólica com “Chelsea Girl” do ano anterior,(fora a estréia sem precedentes com o Velvet Underground).A ex-modelo alemã resolveu pirar de vez.Totalmente alucinada pelo consumo abusivo de heroína ela quis e conseguiu fazer uma ode suprema ao vicío ao suicídio e a depressão, tudo junto e misturado como diz o poeta Lat(r)ino.Na caústica “Ari’s Song” ela canta: “Deixe a chuva lavar os dias nublados/Navegue para longe dentro de um sonho/Deixe o vento mandar pra você uma fantasia/Do ancião do mar de prata”.Daí dá pra se ter uma idéia da cachola da moça né.O disco foi produzido por John Cale uma das cabeças pensantes do Velvet e o cara que transformou os versos macambúzios de Nico em folks songs tristíssimas e amplamente pertubadoras que se forem ouvidas no período errado podem levar o sujeito a pelo menos decepar a própria orelha.Só pra constar: Nico, cujo nome de batismo era Christa Paffgen faleceu no dia 18 de julho de 1988 vítima de uma hemorragia cerebral causada por um tombo de bicicleta!!?Existe coisa mais triste do que isso? Sim, torneira pingando ás 03:00 hrs da madrugada!

Indicado para quem: Acha que leva uma vida de merda

03- Pornography(1982) – The Cure

Se você odeia aquele monte de adolescente vestidos de preto da cabeça aos pés, com maquiagem carregada e batons vermelhos na boca(até os homens) culpe Robert Smith e este quarto disco do Cure.Aqui está a epítome do dark, os adoradores de catacumba e cultivadores da tristeza como modo de vida e subterfúgio de felicidade.”One Hundred Years”, “Hanging Garden”, “ A Strange Day” são tão deprês e tão cativantes ao mesmo tempo que corre o risco de você sair por aí de preto da cabeça aos pés em plena segunda feira ensolarada.É um puta disco antes de qualquer coisa.Adoro ouvir este disco quando estou triste, me alivia na hora, abre um sorriso na boca e me faz pensar: Porra, tem gente muito pior do que eu! Levanta a cabeça e vamos em frente.Pena que Robert Smith ficou relativamente mais felizinho depois dessa obra prima, principalmente no multiplatinado “The Head on the Door”.

Indicado para quem: Confunde tristeza com depressão.

02- A Tempestade ou o Livro dos Dias(1996) – Legião Urbana

“O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus.” É com essa frase que aparece no encarte de “A Tempestade” e não o já tradicional “Urbana Legio Omnia Vincit”(A Legião Urbana tudo vence) que Renatão dá claros sinais de que a esperança havia de vez abandonado sua vida.Debilitado cada vez mais pela AIDS e sentindo a presença da morte igualmente presente ele transformou “A Tempestade” em um disco de despedida.Uma despedida melancólica e emocionante, como todas as despedidas devem ser.O disco começa com “Natália” decretando:”Vamos falar de pesticidas e de tragédias radioativas” e finaliza com “O Livro dos Dias” anunciando que “Este é o livro das flores/Este é o livro do destino/Este é o livro de nossos dias/Este é o livro de nossos amores.”A gravação foi especialmente conturbada com Renato ligando para o produtor Tom Capone e os demais companheiros de banda por altas madrugadas simplesmente para ofendê-los e critica-los enquanto ele mal dava as caras no estúdio para acompanhar a produção.Ademais todos os problemas e angústias o disco contém vários lampejos de genialidade como a dolorida “Mil Pedaços”, a fábula candanga-juvenil “Dezesseis”, a sublime “Esperando por Mim” e a quase evangélica “A Via Láctea”: “Não me diga isso/Não me dê atenção/ e obrigado por pensar em mim”.Valeu Renatão!

Indicado para quem: Passou a adolescência trancado dentro de um quarto escuro.

01- Pink Moon(1972) – Nick Drake

Pink Moon é um disco de músicas tristes feito por uma pessoa em incondicional estado de depressão.Mas o que se percebe aqui não é uma tristeza dolorida, rancorosa e vingativa.É uma tristeza luminosa, admirável e quase sagrada.Daquelas que só os gênios são capazes de fazer brotar.Em 1972 Nick Drake já tinhas lançado dois discos, os sensacionais “Fives Leaves Left” e “Bryter Later” e apesar de relativa acolhida por parte da crítica, comercialmente os discos foram um fracasso estrondoso; o que só aumentou ainda mais o frágil estado emocional em que o jovem se encontrava.Nick, que há pouco tinha desenvolvido esquizofrenia, não tinha mais contrato com a Island Records mas mesmo assim se enfurnou nos estúdios da gravadora e em pouco mais de uma semana com a companhia solitária de seu violão gravou as onze canções que compõe “Pink Moon”.Todas as músicas não passam de 2min e meio, somando o disco todo com vinte e oito minutos.Menos de meia hora de dedilhados suaves e hipnóticos, melodias afetuosas e letras oníricas que fazem até os fãs de Black Metal fechar os olhos e imaginar um jardim repleto de flores e coelhos passeando sutilmente sob o sol.De qualquer forma “Pink Moon”, “Place to Be”, “Things Behind the Sun”e “From the Morning” estão entre as obras mais belas já produzidas pela mão e coração do homem moderno.Nick após o lançamento de “Pink Moon” se retirou do meio musical, voltando a viver reclusamente ao lado da família, até que uma auto intoxicação aguda de amitriptilina admnistrada por ele próprio o levou a morte em 1974.A polícia londrina decretou suicídio como causa mortis, fato este negado veementemente pela família, mas todavia, acidental ou não, Nick já tinha noção de ter exercido sua função neste mundo.

“Vi escrito e vi dizerem

A lua rosa está a caminho

E nenhum de vocês ficarão tão soberbos

A lua rosa vai pegar todos vocês

E é uma lua rosa

Sim, uma lua rosa”

Indicado para quem: Acredita que pessoas tristes ouvem músicas felizes para disfarçar sua depressão.

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One response to this post.

  1. Gostei demais! Curto muito a tristeza e desgraça alheia!

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