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Movies, Movies, Move: O Grande Lebowski

Ao som de: La Posada de Los Muertos_Mago de Oz_Gaia II La Voz Dormida

É comum, nesse mundão pop em que vivemos, alguma obra se tornar maior do que seus criadores esperaram. Tais obras se tornam quase religiões, com seguidores fiéis, que defendem seus filmes, livros, bandas preferidas como se defendensem a honra de suas mães. Já conheci trekkers (fãs de Star Trek) , excers (os paranóicos fãs de Arquivo X) e por ai vai. Mas os mais engraçados, e por incrível que pareça, mais coerentes nessa época niilista em que vivemos são os Dudeístas. Mas, nas palavras do velho sábio Platão: what a fuck is this?

Segue, em algumas poucas palavras, um trecho pra entender um pouco do dudeísmo:

…não se pode cometer o erro frequente de confundir dudes com hippies!
Hippies são meros bandos ingénuos de sentimentalistas que fumam demasiada ganja.
Dudes de mochila às costas, por outro lado, são independentes, bem informados, e suficientemente cínicos para saberem que as pessoas e as coisas não são intrinsecamente “todas boas”. Muitos deles também fumam demasiada ganja, mas isso é outro assunto. Pode-se dizer que os dudes são realistas que se revoltam contra idealismo excessivo, enquanto que os hippies são idealistas que se revoltam contra realidade excessiva. Assim, o mandamento dude é o mesmo que o de Voltaire, o de Samuel Johnson e o de Thoreau: Tende para o teu próprio pequeno jardim e conserta a vedação do teu vizinho.
Os
hippies, por outro lado, pensam que o mundo inteiro é um jardim sem vedações, e depois ficam desapontados quando as pessoas disparam contra eles por invasão de propriedade. Esta seria uma excelente época para convocar Adão e Eva, mas os dudeistas não acreditam que essa treta tenha alguma vez acontecido.

Mas o que diabos levou ao surgimento de uma filosofia tão interessantemente maluca?

O Grande Lebowski, claro.

O filme de 1998, só demonstra algo que eu tenho sacado no passar dos ultimos meses: os irmãos Cohen acertaram mais uma vez.

No filme, Jeff Bridges intepreta Jefrey Lebowski, um desempregado convicto que, por escolha própria, resolveu levar sua vida sem maiores preocupações com coisa sem importância como contas de energia, aluguel, impostos e outras miúdezas. Sua maior preocupação é ouvir em seu walkman a coletânea do Creedence enquanto fuma um do bom, além de ter sempre a mão um White Russian, um drink escroto feito a base de vodka e leite! (!). Nas horas vagas (ou seja, quase sempre) Lebowski se dedica ao seu esporte favorito, o boliche. Na companhia de seus dois melhores amigos, Walter, um veterano surtado do Vietnã, recém separado da esposa (um dos melhores papéis de John Goodman, hilário) e Donny, o sempre censurado companheiro do time de boliche ( um Steve Buscemi extremamente normal, mas não por isso menos engraçado do que de costume).

losers...but happy...

Lebowski leva uma vida que todos considerariam patética. Mas em sua perspectiva de vida, aquela é a melhor das vidas. Tranquila, se aporrinhações e encheções. O “The Dude” (como ele se auto denomina) leva a risca a filosofia do “deixa a vida me levar”, desenvolvida pelo nosso “Cara” nacional, Zeca Pagodinho.

Até que um dia, sem mais nem menos, Lebowski tem sua casa invadida por bandidos que o confundem com um outro Lebowski ( o rico) e, como forma de extravazar a frustração por terem confundido dois sujeitos totalmente distintos, mijam no tapete do nosso Dude. E, em busca de um tapete pra chamar de seu, Lebowski, o pobretão, se vê envolvido em uma trama de violência, mentiras e boliche, junto de alemães niilistas, a industria pornô, uma artista contemporânea performática e toda sorte de malucos simplórios da fauna típica estadunidense.

Os irmãos Cohen conceberam uma fábula sobre a busca pela tranquilidade. The Dude, o patético, as vezes é mais coerente que qualquer um de nós, levando uma vida simplória. Mas será que precisamos mesmo viver em função de dinheiro, poder, status e esses outros detalhes aos quais a sociedade dá tanto valor?

No fim das contas, terminei de assistir ao filme com uma baita inveja do Dude. Por que a vida que ele escolhe levar simplesmente foge de todas as regras aos quais somos forçados a conviver, muitas das vezes, acreditando que não temos alternativa a não ser nos render. Negar o Status Quo, é isso que o Dude faz. Alguem ai lembrou de um outro Dude? Talvez, um cara chamado…Jesus?

Não me espanta uns malucos terem criado uma “religião”. Sempre terá alguem precisando de algo pra seguir, as vezes, ate nós mesmos. Na falta de algo melhor, por que não ser um pouco “Dude”. Fica ai a sugestão.

E pra acabar, mais uma vez, a constatação do óbvio: esses irmãos Cohen sabem o que estão fazendo mesmo.

PS: não ia citar todos os ótimos atores do elenco do filme, mas percebi que era preciso. O filme conta com a participação da sempre charmosíssima Juliane Moore, além de Philip Seymour Hoffman, a gata Tara Reid (eterna mina do American Pie), Peter Stormare e uma ponta muito engraçada de Flea, baixista do Red Hot Chilli Pepers, além do sempre, sempre fodaço John Turturro. E ele é simplesmente o coadjuvante que rouba a cena como Jesus, o jogador de boliche latino cheio de trejeitos. Tem como ser menos engraçado?

PS2 etílico: vou deixar a receita do White Russian, pra quem quiser se arriscar. Se der certo, avise-me…

Seu preparo é simples. Em um copo de uísque, coloque:

  • 1 dose de vodca,
  • 3/4 de licor de café (Kahlúa, por exemplo)
  • Adicione um pouco de leite ou creme de leite
  • Misture com pedras de gelo no próprio copo ou bata em uma coqueteleira

Lucas Bonachovski, querendo uma vida mais tranquila…

movies, movies, move: E ai, meu irmão, cadê você?

Ao som de: Methamphetamine_Tennessee Pusher_Old Crow Medicine Show

Existem dois recortes temporais que me fascinam: um deles é o Rio de Janeiro em fins do século XIX, ainda antiga capital do Brasil, com seus cortiços lotados, um clima de mudanças políticas cada vez mais intenso e uma malemolência carioca legítima, que não se encontra em qualquer boteco do cruzeiro (piada brasiliense, desculpas aos que não entenderam…)

O outro, são todos os estados caipiras do US and A. Tennessee, Alabama, Kentucky, e todos esses lugares onde, nos filmes, a vida parece passar com muito mais vagareza e tranquilidade que nos lugares comuns.

Agora imagine um filme que tem como pano de fundo um Mississipi abalado pela quebra da bolsa de 1929, onde três malandros recém fugidos de uma fazenda criminal saem em busca de seu tesouro escondido, buscando melhorar a vida tão complicada daquele período.

Essa é a premissa básica de “E ai, meu irmão, cadê você”, filme de 2000, dirigido por Joel Cohen. Básica, por que o filme segue em um rumo fantásticamente inesperado.

A começar pelo roteiro, que é uma adaptação baseada na obra clássica de Homero, “A Odisséia”. De uma maneira bem bizarra, Ulisses, o mítico herói grego que lutou em Tróia ao lado de Aquiles, se transforma em Everett Ulysses McGill, interpretado fodasticamente por George Clooney, um trambiqueiro falastrão, de conversa fácil e viciado em goma para o cabelo. Ao seu lado, o sempre mal-humorado Pete (John Turturro, sempre ótimo) e o inocente Delmar (Tim Nelson Blake). Após a fuga da prisão, os três sujeitos conseguem se enfiar em tudo quanto é tipo diferente de enrascadas para encontrar um dinheiro roubado antes que Ulysses fosse preso.

The Soggy Botom Boys...e a fanfarronice de George Clooney...

Nesse meio tempo, o trio se junta ao guitarrista Tommy, que conheceram em uma encruzilhada, após ter vendido sua alma ao Diabo para aprender a tocar violão (uma das mais famosas lendas do universo do Blues americano). E nesse encontro, sem imaginar, os quatro produzem sem querer o maior sucesso musical daquele período: Man in a Constant Sorrow.

Já aproveitando o gancho, “E ai, meu irmão, cadê você” possui uma das melhores trilhas sonoras que eu já tive o prazer de ouvir. Casando de maneira fantástica com o contexto histórico do filme, as músicas vão dos clássicos do blues e do country e folk americanos, interpretados por músicos fodaços da cena musical americana, tal como Alisson Krauss (que recentemente gravou um album cheio de prêmios com Robert Plant).

Os três Soggy Botton Boys (ou traseiros encharcados…como ficou conhecida a banda de Ulysses) seguem a vida por uma América pobre, aproveitadora e politicamente suja, mas ao mesmo tempo, com uma cultura e valores interessantíssimos.

E o fator comédia não deixa a desejar: George Clooney, pra mim, é um dos grandes atores da minha geração. Mesmo com aquele jeito fanfarrão de sempre, ele fica engraçadíssimo quando assume peronagens caricatos como Ulysses. E nem preciso falar de John Turturro. O cara é sempre magnífico em suas interpretações de personagens cômicos. A cena em que os três encontram uma reunião da Klu Klux Klan, é impagável.

No fim, terminei de assistir o filme com uma certeza: definitivamente, esta já está no meu top dez de melhores comédias. Com um humor rebuscado, ora sútil e ora “trespatetamente” escrachado, o filme mostra que novamente música e cinema se completam muito bem.

Fica ai, de bandeija, o Dan Tyminski Band, ou o original Soggy Botom Boys, que interpreta a versão de “Man in a constant sorrow” cantada no filme.

Lucas Bonachovski…é um homem em constante lamento, que já enfrentou difculdades, a vida inteira…